terça-feira, 24 de abril de 2012

Um universo paralelo


         Em um universo qualquer, em um mundo também conhecido como Terra, dois amigos conversam próximos a uma lareira. O inverno é rigoroso e implacável por aqui, o vento gélido se choca ferozmente contra a porta de madeira da cabana, num curral ali perto, alguns humanos se amontoam em meio ao feno para que possam se aquecer. E dentro da cabana os donos daquelas terras repousam e conversam sobre assuntos rotineiros:

-Oh, Sr. Buffalo, o que achou dos biscoitos que minha mulher preparou?
-Estão ótimos Sr. Pork, vou pedir para que ela anote a receita para que minha mulher possa prepará-los la em casa.
-Haha, claro, claro, o ingrediente secreto é um pouco de coração.
-Você fala...amor?

-Não, não, falo de corações humanos mesmo...
-Hehe, bom, ficaram deliciosos...Dê meus parabéns a sua mulher. - Concluiu Sr. Buffalo com um sorriso no rosto.- O inverno esse ano parece estar mais frio o senhor não acha?
-Caro amigo, concordo com vossa pessoa, todos os anos parecem mais frios, felizmente comprei alguns casacos de peles na cidade.
-Ahh sim, claro, claro, os casacos, comprei dois casacos de pele também, um para mim e um para a minha mulher, eles fornecem bons casacos de pele humana para uma criatura sem pelo. O Senhor já experimentou os cachecóis?
-São excelentes meu amigo, excelentes. -Disse Sr. Pork degustando um pouco do chá recém preparado. - Esses humanos foram as melhores coisas que Deus já criou, nos dão alimento, peles, são animais bons para o trabalho, para companhia, são leais, e tudo o que precisam é de alguns grãos para sobreviver e um lugar qualquer para dormir.
-É, mas são bem caros também, tanto que todos os comerciantes de humanos são ricos.- Afirmou Sr. Buffalo com um olhar de repreensão enquanto levava a xícara de chá até os robustos lábios.
-É tudo tem seu preço amigo, eles dão um filhote por ninhada, as vezes dois, muito raro dar mais que isso, por isso são tão caros. - Concluiu Sr. Pork arqueando uma sobrancelha.
-Bom, mas vale a pena pagar alguns trocados a mais por algo de qualidade, essa semana minha mulher comprou uma humana para fazer companhia. Paguei trinta moedas de ouro, só que o vendedor garantiu que ela era inteligente, leal e obediente.
-Fez um bom negocio então amigo, qual a raça?
-Acho que era Mongólica, coloração da pele mais amarelada, cabelo liso, etc.
-Ahh, realmente o vendedor não te enganou, os animais dessa raça são ótimas companhias, são espertas, ágeis, e tudo isso ai que o vendedor falou. Vendem eles como companhia porque não aguentam muito o trabalho pesado.
-Imaginei, a que compramos é bem magra e aparenta ser frágil. Bons mesmo para o trabalho são os da raça negroide, são fortes e robustos, aguentam fazer todos os serviços praticamente, girar a roda do moinho, arar a terra, carregar troncos, pedras, cavar, plantar, são ótimos para ter nas fazendas como animais para o trabalho.
-Eu já sabia dessas qualidades deles, mas nunca comprei para as minhas terras porque são caros demais.
-Mas compensam o preço, se quiser peço uma oferta para um comerciante que é primo meu e ele consegue alguns desses mais baratos.
-Nossa, isso seria ótimo. Em troca posso lhe dar algumas cabeças de humanos caucasoides, são excelentes para o abate, carne macia, ganham peso rápido, multiplicam-se...- nesse instante Sr. Pork se colocou uma das mãos na boca para cochichar- multiplicam- se como coelhos hehe.
-Haha, amigo, cuidado para não ser acusado de racismos. - Disse Sr. Buffalo com uma gargalhada.- mas eu estou interessado sim, conheço dessa raça, dão bons cozidos, só fico com pena de abate-los quando chega a hora, mas é necessário né, se não vamos comer o que? Meus filhos precisam de alimento.
-Com certeza meu caro, com certeza, também não gosto de abate-los assim, dizem que os abatedouros são horríveis, gritos e desespero. Eu nunca tive coragem de ir em um, mas dizem que o animalzinho sente quando vai morrer e começa a entrar em depressão.
-Pobres humaninhos, nem tem consciência do que se passa com eles. Deve ser triste ser um animalzinho indefeso e ter que servir de alimento e etc.-Com um tom lamurioso Sr. Buffalo tentava comover o velho porco- coitados, já pensei em virar “vegetariano”, mas a carne esta em nossa cultura a séculos já.
-Mas deixemos esses tormentos de lado, não quero ficar triste hoje. Tenho que alertar uma coisa dos caucasoides, tem que tomar cuidado com a alimentação deles, se não eles viram grandes bolas de gordura e a carne não fica boa.
-Certo, eu vou tomar cuidado com isso.- Sr. Buffalo comia mais um biscoito de coração enquanto falava- Aposto que isso aqui é de caucasoide, o sabor é inconfundível.
-Percebo que tem um bom paladar amigo, acertou em cheio. Agora eu gostaria de saber como anda a guerra entre seu povo e o povo Lion.
-Há...aqueles malditos gatos crescidos, meu estômago embrulha só de pensar nisso. Acredita que eles devoram nossos combatentes que caem em batalha?
-Não acredito, que povo repugnante – Sr. Pork enojava-se com a noticia – amigo, se eu tivesse mais influência com o rei porco, eu pediria para nos aliarmos nessa guerra.
-Não esquente com isso amigo, vamos ganhar essa batalha, porém eles tem garras e dentes afiados por natureza. Fora as armas de aço que conseguiram construir, felizmente temos nossos chifres e nossa inteligência.
-Ainda estou chocado com o que me disse, imagina, alguém comer carne de búfalo...isso é muito enojante. Malditos leões. - A raiva de Sr. Pork era tanta que sua xícara tremia junto a sua pata.
-Acalme-se amigo, acalme-se...-Disse Sr. Buffalo tentando confortar o amigo.- eles receberão o que merecem, o tempo dará isso a eles.
-Vou tentar me acalmar, já me disseram que meu temperamento vai me matar ainda – Brincava o porco já mais calmo.
-Agora eu preciso ir amigo, minha mulher me espera em casa.
-Certo, não esqueça que pode contar comigo nessa guerra.
-Não esquecerei – Respondeu o búfalo pegando seu casaco de pele humana e seu chapéu preto. - vou indo amigo, passe la em casa qualquer hora.
-Passarei sim.

        O Búfalo sentiu o intenso frio ao sair da cabana, caminhou até sua carroça e pediu para seu empregado comandar os animais, o búfalo empregado chicoteou os humanos que saíram correndo em meio a neve arrastando a carroça, enquanto humanos negroides puxavam o veículo do Sr. Buffalo em meio aquele gelo todo, Sr. Pork observa atentamente a carroça sumindo entre a névoa. O vento arrastava as folhas das árvores com uma força indomável, pequenos esquilos vestidos com ternos bonitos acenaram para o porco de cima de uma pequena cabana feita no topo de uma árvore de copa coberta de neve. Ao ver que seu amigo bovino havia desaparecido, ele adentrou seu lar e fechou a porta, logo em seguida foi se agasalhar nos braços de sua mulher...

        E esse foi mais um dia comum nesse mundo.

Antonio Elcio.

2 comentários:

  1. é...se colocar no lugar d outra criatura...difícil,a gente só percebe a crueldade qnd é coma gente...

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