Quando saiu cedo de casa, sua mulher o ajudou a vestir a armadura, seu filho lhe entregou a espada com lágrimas nos olhos, beijou sua mulher a abraçou seu filho, todos chorosos e tristes. Mas ele não podia evitar seu destino, não podia fugir se sua sina, o assoalho de madeira de sua casa estalava levemente enquanto ele caminhava em direção a sua lança presa na parede. Ajoelhou-se diante da imagem de seu pai e pediu proteção. Logo após isso, saiu sem olhar para trás.
Enquanto montava seu cavalo, com a espada e escudo nas costas, sua
lança estava em suas mãos, preparada para o combate. Ele liderava
seus soldados, uma grande tropa de quinhentos soldados, todos tinham
um enorme respeito por ele, era um homem bondoso, honrado e
influente, sua jornada até o cargo de general levou anos e anos, mas
nunca precisou se rebaixar para ninguém para chegar aonde chegou.
Agora com seus quarenta e três anos se dirigia para mais uma
campanha, conquistar o último castelo inimigo.
Depois de uma longa jornada, se deparou com a marcha de uma enorme
tropa inimiga, com sua experiência ele deduziu ter por volta de mil
soldados naquele meio, agora era tarde para retornar, se fugissem
eles os perseguiriam, a única solução era um combate. Então ele
ordenou uma carga em direção aos inimigos. Os arqueiros atiraram
suas flechas, a cavalaria saiu em grande velocidade lideradas pelo
general, a infantaria logo atrás correndo.
Uma chuva forte cobria o campo de batalha e limpava o sangue que era
derramado ali, era como se os deuses chorassem por seus filhos
mortos. Aquela bela planície era manchada agora por sangue e lágrimas, o barulho da chuva era ocultado pelos gritos, muitos de
dor, muitos de raiva. Soldados escorregavam na lama que se formava,
os que caiam não levantavam mais. Em meio a isso tudo o general
passava com seu cavalo perfurando o corpo de muitos inimigos. Sua
lança só precisava de um movimento rápido e preciso para derrubar
um homem, e foi esse o movimento que ele repetiu várias vezes
durante essa batalha.
A chuva ainda caia, a batalha já durava alguns minutos e muitos
corpos mortos de ambos os lados acumulavam-se no chão. O general já
cansado e ensopado com sangue dos inimigos e água da chuva, não se
sentia bem devido a um ferimento de lança no braço e a perda de
sangue. Sua cabeça girava, esse era seu destino. Mais rápido que um
relâmpago uma flecha foi disparada em sua direção, a água pingava
na flecha e ela parecia acelerar cada vez mais, o general conseguia
ver ela girando no ar, mas seus braços não conseguiram se mexer.
O projétil atravessou a armadura, atingindo o coração daquele
velho e sábio homem, sentiu uma dor confortável e viu sua hora
chegando, não lutou, apenas deixou acontecer. Sem forças caiu do
cavalo de costas no chão, parecia escutar cada barulho que antes
passara despercebido, o grito dos soldados, a água da chuva
escorrendo e as gotas pingando no chão. Era tudo tão bonito. Agora
deitado de costas no chão ele conseguia olhar o céu, pensou “mesmo
nublado ele continua lindo”. Gotas de chuva pingavam em todo seu
rosto, uma sensação agradável apesar da dor em seu peito, já
respirava com dificuldade.
O cansaço tomou conta de seu corpo, tudo começou a ficar leve e
distante, fechou as mãos agarrando um pouco de terra molhada e então
deixou tudo acontecer... Era como se tivesse flutuando, por um
segundo se lembrou de tudo o que viveu e agradeceu pela boa vida que
teve, pediu aos seus deuses perdão por abandonar sua família e
também proteção e saúde para ela. Depois de contemplar a beleza
do céu mais uma vez, seu corpo já não respirava mais, tudo o que
restou foi a lenda de um bravo general.
Antonio Elcio

nossa...muito boa...muito bem escrita.
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