Era difícil para ela acordar, tentava viver um dia após o outro, quando abria os olhos lembrava-se da escuridão que a cercava e sussurrava uma pergunta ao vento "Será que vale a pena continuar?". Essa história se passa em um lugar distante onde as noites eram mais longas e os dias mais perigosos, um lugar em que a luz e os demônios duelavam por espaço.
Ao abrir os olhos lembrou-se novamente da escuridão ao redor, mas ao invés de sussurrar sua conhecida pergunta, disse, "Hoje vai ser diferente". Levantou e se armou para enfrentar os demônios que a esperavam do outro lado da porta, olhou para a pesada porta feita de mármore, parecia pesar toneladas, por instantes quis desistir mas novamente repetiu para si mesma "Hoje vai ser diferente". Determinada, fez um grande esforço para tentar mover a pesada porta que bloqueava a entrada, até que conseguiu abrir por completo, viu que o sacrifício tinha valido a pena, lá fora estava um dia lindo, o sol banhava as árvores com a sua restauradora luz, o vento soprava suavemente através da porta, ela podia sentir tudo aquilo, respirava o ar fresco e se sentia revigorada, mas sabia que pela frente ainda iria enfrentar uma verdadeira batalha.
Deu os primeiros passos para fora de sua prisão, sentiu a terra firme sob seus pés descalços, era uma sensação de liberdade, de leveza, nesse momento nada a assustava, pela primeira vez em muito tempo se sentia bem, confortável e livre. A cada passo que dava pela trilha única entre as enormes árvores sentia-se encher de esperança, nada podia pará-la, mas essa sensação durou muito pouco, logo o cenário estava mudando, o sol se escondia entre densas nuvens negras, o vento soprava mais forte, frio e cortante, o chão enchia-se de pedras e a cada passo ficava mais difícil caminhar. Ela não se abateu, mesmo sua mente dizendo para voltar, ela apenas respirou fundo e disse "Hoje vai ser diferente", continuou sua caminhada solitária em lentas passadas, seus pensamentos se distanciavam dali, tentava pensar em coisas boas, pretendia encontrar a felicidade no fim da trilha escura. Seus pensamentos bons foram interrompidos por uma voz rouca e misteriosa que vinha de trás de um arbusto:
-Ei garota, por que esta seguindo esse caminho? Você sabe que no fim não vai encontrar nada de bom. - Disse o dono da voz misteriosa, sem se mostrar.
Ela não teve medo, sabia de quem se tratava, era o primeiro demônio.
-Na...não é verdade - Balbuciou sem ter muita confiança no que falava, a dúvida e o surgiam em sua cabeça.
O estranho saiu de onde estava e começou a caminhar ao lado dela, vestia-se com uma capa preta que tinha um capuz, escondia seu rosto atrás de uma máscara feita com pano branco, onde era possível ver um sorriso sádico desenhado em tinta preta.
-Ééé simmm, você sabe que é verdade, não tem nada pra você mais a frente, deve voltar para onde estava. - Continuou o sujeito, agora sua voz agora era sibilante, lembrava o som que as cobras emitem.
-Por que esta aqui? Você deve ir embora, sabe que nada vai me fazer voltar atrás. - Bradou a garota enquanto tentava se manter firme.
-Hahaha você já tentou outras vezes, nunca foi além desse ponto. Por que seria diferente? Olha pra você, és fraca, feia, e não sabe fazer nada, esqueceu por que se escondeu atrás daquela porta pesada? Esqueceu quem você é? Você não é nada, o mundo vai te mastigar e cuspir pois você é um ser insignificante.
Ela abaixou a cabeça e ficou sem resposta para aquilo, sentia as lágrimas vindo e um nó se formando na garganta "Por que ele esta aqui de novo? Justo hoje, ele não desiste, não sei o que fazer". As lagrimas já molhavam sua face, ela não respondeu ao monstro, resolveu continuar caminhando em silencio.
-Para de ser estupida, você sabe muito bem que não é capaz de continuar trilhando esse caminho, você é fraca e sempre desiste, idiota sem talento, volte pro buraco onde estava se escondendo ninguém sentiu sua falta esse tempo todo que se escondeu la e não vai fazer diferença se conseguir sair dessa floresta. Tenho nojo de você, ser desprezível.
Ela escutava tudo aquilo em silencio, e chorava e mesmo assim continuou caminhando, a floresta estava cada vez mais sombria, árvores secas dominavam a paisagem, o chão tinha pedras pontiagudas que furavam seus pés e mesmo assim ela não desistiu, após mais alguns metros de caminhada ela pisou em uma poça de água que era como se tivesse sido colocada ali por alguém, uma poça com água da chuva, parou ali e ficou encarando a poça que mostrava um reflexo embaçado devido as pequenas ondas causadas pelo movimento, ficou ali olhando fixamente para a poça enquanto aquele sujeito repetia para ela o quanto era insignificante, inútil, sem talento, sem valor, sem beleza, sem nada, porém sua voz ficava distante enquanto o reflexo dela surgia na poça, olhou para seu rosto refletido, passou a mão nos cabelos louros e mal arrumados, sorriu para si mesma e pensou "Eu te amo!". Respirou fundo e começou a falar para o seu acompanhante:
-Sabe, você não tem razão no que fala, eu não sou isso, eu sou muito mais que isso, eu tenho defeitos e sei disso, mas alguém fraco não tentaria corrigi-los, alguém fraco não sairia da cama todos os dias para enfrentar demônios, a capa de um livro não reflete seu conteúdo, você está errado e preso apenas ao que consegue ver, é vazio e sozinho por isso diz essas coisas, está afirmando para você mesmo o que você é. Mas eu não te culpo, não te julgo, eu te perdoo e liberto , posso sentir toda a dor que você sente, sei que não chegou ao estado que está sozinho, sei também que as pessoas são cruéis e nem todas nos aceitam e gostam da gente pelo que somos, muitas vezes é difícil dizer algo pois estamos sendo julgados o tempo todo e temos medo de não sermos aceitos...eu sei pelo que você passou, te perdoo por ter me deixado mal, te liberto de sua prisão. - Ela dizia isso com ternura no olhar, se aproximou daquela criatura e deu-lhe um abraço, ele estava mudo, era possível ver sua máscara de sorriso macabro colando-se ao rosto devido as lagrimas que ele derramava - Não sei o que você é, ou como ficou assim, mas não desista, você não é isso que pensa ser...por favor, seja alguém melhor.
Ela deu um leve beijo no rosto coberto pela mascara e seguiu em frente saltitando e sorrindo, se sentia muito mais leve e a tristeza que experimentara minutos antes estava sumindo, era uma sensação maravilhosa que gostaria que durasse para sempre, se olhasse para trás agora iria ver o "ser misterioso" ajoelhado chorando em silencio sob a poça enquanto olhava para seu reflexo na água, mas ela não olhou continuou trilhando seu caminho que agora estava novamente se tornando iluminado e aconchegante, árvores mortas davam lugar a árvores grandes que exalavam beleza e serenidade.


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