quarta-feira, 25 de abril de 2012

Última campanha

     
         Quando saiu cedo de casa, sua mulher o ajudou a vestir a armadura, seu filho lhe entregou a espada com lágrimas nos olhos, beijou sua mulher a abraçou seu filho, todos chorosos e tristes. Mas ele não podia evitar seu destino, não podia fugir se sua sina, o assoalho de madeira de sua casa estalava levemente enquanto ele caminhava em direção a sua lança presa na parede. Ajoelhou-se diante da imagem de seu pai e pediu proteção. Logo após isso, saiu sem olhar para trás.

        Enquanto montava seu cavalo, com a espada e escudo nas costas, sua lança estava em suas mãos, preparada para o combate. Ele liderava seus soldados, uma grande tropa de quinhentos soldados, todos tinham um enorme respeito por ele, era um homem bondoso, honrado e influente, sua jornada até o cargo de general levou anos e anos, mas nunca precisou se rebaixar para ninguém para chegar aonde chegou. Agora com seus quarenta e três anos se dirigia para mais uma campanha, conquistar o último castelo inimigo.
  
        Depois de uma longa jornada, se deparou com a marcha de uma enorme tropa inimiga, com sua experiência ele deduziu ter por volta de mil soldados naquele meio, agora era tarde para retornar, se fugissem eles os perseguiriam, a única solução era um combate. Então ele ordenou uma carga em direção aos inimigos. Os arqueiros atiraram suas flechas, a cavalaria saiu em grande velocidade lideradas pelo general, a infantaria logo atrás correndo. 

        Uma chuva forte cobria o campo de batalha e limpava o sangue que era derramado ali, era como se os deuses chorassem por seus filhos mortos. Aquela bela planície era manchada agora por sangue e lágrimas, o barulho da chuva era ocultado pelos gritos, muitos de dor, muitos de raiva. Soldados escorregavam na lama que se formava, os que caiam não levantavam mais. Em meio a isso tudo o general passava com seu cavalo perfurando o corpo de muitos inimigos. Sua lança só precisava de um movimento rápido e preciso para derrubar um homem, e foi esse o movimento que ele repetiu várias vezes durante essa batalha.

        A chuva ainda caia, a batalha já durava alguns minutos e muitos corpos mortos de ambos os lados acumulavam-se no chão. O general já cansado e ensopado com sangue dos inimigos e água da chuva, não se sentia bem devido a um ferimento de lança no braço e a perda de sangue. Sua cabeça girava, esse era seu destino. Mais rápido que um relâmpago uma flecha foi disparada em sua direção, a água pingava na flecha e ela parecia acelerar cada vez mais, o general conseguia ver ela girando no ar, mas seus braços não conseguiram se mexer.

        O projétil atravessou a armadura, atingindo o coração daquele velho e sábio homem, sentiu uma dor confortável e viu sua hora chegando, não lutou, apenas deixou acontecer. Sem forças caiu do cavalo de costas no chão, parecia escutar cada barulho que antes passara despercebido, o grito dos soldados, a água da chuva escorrendo e as gotas pingando no chão. Era tudo tão bonito. Agora deitado de costas no chão ele conseguia olhar o céu, pensou “mesmo nublado ele continua lindo”. Gotas de chuva pingavam em todo seu rosto, uma sensação agradável apesar da dor em seu peito, já respirava com dificuldade.

        O cansaço tomou conta de seu corpo, tudo começou a ficar leve e distante, fechou as mãos agarrando um pouco de terra molhada e então deixou tudo acontecer... Era como se tivesse flutuando, por um segundo se lembrou de tudo o que viveu e agradeceu pela boa vida que teve, pediu aos seus deuses perdão por abandonar sua família e também proteção e saúde para ela. Depois de contemplar a beleza do céu mais uma vez, seu corpo já não respirava mais, tudo o que restou foi a lenda de um bravo general.

Antonio Elcio

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