sexta-feira, 27 de abril de 2012

A febre do ouro


         Em pleno dia ensolarado ele se encontrava a deriva no mar, deitado no convés do navio, uma garrafa de gin virada ao seu lado rolava pelo piso conforme o balanço das ondas, o sol escaldante torrava-lhe a pele mas ele não se importava com isso, em sua mente a única coisa com que se importava era o ouro, foi para isso que saiu nessa jornada. O desnutrido capitão se julgava capaz de continuar sua busca, mesmo seu corpo dizendo que estava na hora de desistir, porém ele sabia que fazia isso porque queria viver uma boa vida, queria ser rico e subjugar todos aqueles que os desprezaram anteriormente.

         Os cadáveres estavam espalhados pelo barco, uns no convés, outros na popa, outros no porão e até mesmo no observatório do mastro era possível ver um corpo. As aves aproveitavam a ocasião para se alimentar, eles já estavam ali a tanto tempo que fediam. O pobre homem tentava levantar-se enquanto dizia “Homens, içar velas, vamos partir.” Porém seu esforço era em vão, logo ele voltava para a posição anterior.

         Homens que antes lutaram bravamente para tornarem-se ricos, hoje não passam de cadáveres deitados no convés e servindo de alimento para aves carniceiras. Todos mortos, o único que restou foi o capitão. Dias atrás antes que partissem, a mãe de um jovem que agora estava a apodrecer disse-lhe: “Meu filho, esse homem não parece bem, não vá com ele”. Mas como os conselhos de mãe só são aceitos quando já é tarde, o rapaz ignorou e continuou sua jornada. O navio partiu cortando as ondas e deixando muitas mães, namoradas e esposas chorosas no porto.

         Se aquela tripulação soubesse da doença daquele homem eles nunca teriam entrado nessa, o homem que antes dizia “Ficaremos todos rico”, logo desenvolveu uma obsessão maníaca por ouro, tão profunda que não conseguia parar de pensar naquilo, não dormia mais para continuar sua busca, fazia seus marinheiros mergulharem até 10m em busca do metal e quando subiam de mãos vazias ele sentia a raiva subir em suas veias, então os mandava mergulhar mais fundo que com certeza encontrariam algo, mas só o que encontravam era a morte. Os dias se passaram difíceis para aqueles jovens marujos, o capitão não via os dias passarem, continuava a força-los a mergulhar, e quando alguém se rebelava e pedia para aportarem, o capitão dizia “Quer terra firme? Vá a nado”, e geralmente empurrava-o no oceano. Como a única arma de fogo estava em seu poder, ele sentia-se com a vida daquelas pessoas em suas mãos, logo deixou de se sentir o “defensor” para se sentir um deus. Os alimentos estavam prestes a acabar e mesmo assim eles continuaram a busca por ouro, parando em todo lugar que o velho lobo do mar ordenasse. Como se já não tivesse ruim o bastante, alguns dias depois a comida acabou e logo em seguida a água, o desespero tomou conta de tudo, o único que mantinha a cabeça era o velho louco. Muitos tentaram se rebelar contra ele e esses muitos foram perfurados por bala, outros derrubados no mar e morreram afogados ou devorados pelos tubarões, os que ficaram tinham um medo tremendo da loucura daquele homem e aceitavam suas ordens sem objeções. Ele tornou-se tão louco e tão egoísta que armazenou água e comida em sua cabina, deixava os outros morrerem de fome enquanto se fartava.

         Já não aguentando mais a pressão, muitos procuravam a morte se rebelando contra o capitão, seria um alivio rápido daquele inferno que a viajem se tornou. Assim todos caíram, um a um, até restar apenas o capitão maluco. Ele não parou de procurar, achava que sua tripulação ainda vivia, ordenava-os que mergulhasse e depois de alguns minutos se irritava por que não trouxeram nada, mesmo todos estando mortos, em sua mente ele achava que alguém mergulhava. Continuou repetindo esse ritual em todo lugar que cismava que tinha ouro, até que sua água e comida acabaram. Seu corpo ficou fraco e desnutrido, sem forças para fazer o que fosse. As gaivotas bicavam seu corpo e arrancavam grandes pedaços, ele não sentia, já não sentia mais nada, só sua sede por ouro, suas pernas já estavam quase sem carne, sua barba era tão grande e suja que tornava-se difícil ver o rosto por trás dela, seus cabelos compridos começavam a cair, seus dentes estavam tão podres que até uma mordida em algum alimento os derrubaria, as unhas eram negras e compridas, a carne em seu corpo era tão escassa que era possível ver os ossos tomando forma através da pele. Mas aquele homem ainda estava vivo, ou pelo menos achava que estava. Ficou deitado ali, até que morresse, seu espírito nunca descansou. Nas noites mais escuras, muitos pescadores dizem ver seu velho barco, o “Corvo dourado”, viajando sem rumo pelo oceano enquanto o velho canta uma música junto a sua tripulação morta.

Antonio Elcio.

Um comentário:

  1. nossa...um exemplo de egoismo e ganancia, muitas pessoas ficam assim e n percebem...triste...triste.

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